País pode fortalecer parcerias com ‘isolacionismo’ dos EUA

O enfraquecimento do comércio multilateral e o protecionismo dos Estados Unidos (EUA) abrem oportunidades para o Brasil intensificar acordos bilaterais e regionais e diversificar parceiros.

No entanto, desafios estruturais internos e o grau de abertura comercial ainda pequeno podem limitar a inserção do País no mundo, afirmam especialistas ouvidos pelo DCI. Na avaliação da professora de relações internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) Fernanda Magnotta, a postura protecionista adotada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, já deixa o Brasil em alerta, mesmo que sanções aos nossos produtos ainda não tenham sido colocadas. “O isolacionismo do Trump é um lembrete de que nós não podemos depender deles [dos EUA]”, observa Magnotta, lembrando que o país norte-americano é o nosso segundo maior parceiro comercial. A nação já foi a primeira, porém, perdeu esse posto para a China a partir dos anos 2000.

“Os EUA irão observar quais os setores de cada país tiram vantagem deles e, com isso, devem buscar uma medida [como a sobretaxação]. No caso do Brasil, o que chama mais a atenção são os minérios, porém os combustíveis também podem ser afetados – temos um mercado de etanol importante – assim como as commodities [agrícolas]”, acrescenta a professora da FAAP.

Nesse contexto, o Brasil se verá obrigado a ser menos dependente dos EUA, fortalecendo relações já existentes e buscando novos parceiros. Para Magnotta, há duas janelas de oportunidade para o Brasil: uma delas é a própria China, não só por já ser uma grande parceira, como pela convergência dos interesses bilaterais. “A China depende da nossa matéria-prima e precisa de alimentos para garantir a sua segurança alimentar”, diz ela. O outro caminho é a aproximação com a União Europeia (UE), bloco com o qual o Mercosul já está próximo de fechar um acordo, depois de 20 anos de negociação.

A coordenadora do laboratório ESPM Risk Analysis and International Affairs (ESPM-RAIA) Denilde Holzhacker acrescenta, por sua vez, que o enfraquecimento do multilateralismo, representado, principalmente, pela paralisação (há 12 anos) das negociações comerciais no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), incentiva que os países passem a fazer acordos bilaterais e regionais. Holzhacker lembra que, no caso do Brasil, além da UE, há a expectativa de que o Mercosul avance em acordos com o Canadá e com países asiáticos, para além da China, já que a suspensão da Venezuela e uma postura liberal do bloco têm facilitado negociações.

Já o professor de relações internacionais da FAAP Lucas Leite, pondera que os gargalos estruturais do Brasil são limitadores do seu processo de inserção global. Para ele, o País precisa reduzir muito a burocracia, aumentar a segurança jurídica e fazer um investimento maciço em infraestrutura para que os nossos produtos, principalmente os industriais, possam ganhar competitividade. “Temos que diversificar a nossa produção, porque o valor de troca das matérias-primas e das commodities é muito baixo”, ressalta Lucas Leite, lembrando que não só o Brasil, como também os demais países do mundo irão em busca de outros parceiros, diante do recuo dos EUA das regras do comércio internacional.

Para o professor, uma saída seria o fortalecimento da relação com os países da América Latina e, no caso do aço, ele avalia que a melhor opção seria focar nos países do continente africano ou ampliar acordos com a China. Apesar de ainda não ter ocorrido com o Brasil, Lucas Leite analisa que há indícios de que os EUA sobretaxem o nosso aço.

Sobre as limitações do País, Magnotta ressalta que o grau de abertura comercial do Brasil ainda é pequeno. “A nossa agricultura e agropecuária já se internacionalizaram, mas a indústria nacional ainda é muito protecionista”, comenta Magnotta, afirmando que o Brasil continua sendo visto como um país de alto risco e insegurança política.

‘OMC à la carte’

Apesar das recorrentes críticas à OMC, Magnotta acredita que, pelo menos neste momento, o Trump não deve retirar os EUA da organização multilateral. Segundo ela, a saída de um país da organização gera um longo processo jurídico e pagamento de sanções. “O Trump sabe que o custo-benefício dessa saída, agora, não vale a pena”, destaca Magnotta, afirmando que os EUA tendem a se utilizar da OMC de modo “à la carte”, o que significa que eles irão recorrer à organização somente quando interessar, como para protestar contra um determinado país.

O professor de relações internacionais da Universidade Católica de Brasília (UCB), Cristian Klein, avalia, por sua vez, que há possibilidade do Trump recuar no protecionismo. Ele lembra que, em 2002, o então presidente norte-americano, George W. Bush, sobretaxou o aço, “tiro que saiu pela culatra”, ao provocar perda de empregos dentro do próprio EUA.

Por outro lado, se o isolacionismo americano se aprofundar, Klein comenta que “não há vácuo no comércio internacional que não seja ocupado por outros países”. Sobre isso, Lucas Leite, diz que a China vem assumindo um papel preponderante no mundo. “Mais países têm a China como principal parceiro comercial do que os EUA”, ressalta o professor da FAAP, explicando que a China tem um plano de expandir com foco na América Latina, África e Ásia.

A presença do país asiático já é grande pelas nações africanas. O Zimbabwe, por exemplo, já está bastante endividado com a China e adotou o yuan (moeda chinesa), em 2015, como uma das suas moedas nacionais para tentar estabilizar a economia.