Acordo entre Mercosul e UE deve sair em 2018

Após quase vinte anos de negociações, o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul deve finalmente ser concretizado em 2018. Porém, regras referentes ao setor automotivo têm sido um dos principais entraves para a conclusão do tratado.

“Vivemos uma oportunidade única de fechar o acordo. Haverá uma rodada de negociações em Bruxelas na próxima semana e há um otimismo razoável de anunciar pelo menos um acordo político”, disse o diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Thomaz Zanotto.

O acordo de livre comércio entre os dois blocos econômicos é discutido desde 1999. Recentemente, as negociações ganharam fôlego, beneficiadas pelo atual panorama político internacional.

“Surgiu uma janela de oportunidade excelente: Brasil e Argentina alinhados em políticas pró-mercado, a saída da Venezuela do Mercosul e os Estados Unidos promovendo uma linha equivocada de protecionismo. Parece que os astros se alinharam”, diz o professor de economia do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais de São Paulo (Ibmec/SP), Roberto Dumas.

A assinatura do acordo tem sido impedida por detalhes técnicos sobre barreiras tarifárias, especialmente nos setores agropecuário e automotivo.

“O Mercosul se preocupa com a cota de exportação de carne, e este é um ponto que precisa ser esclarecido. Do lado dos europeus, há o desejo de maior abertura para exportar veículos. A próxima rodada será focada nesses temas”, prevê o gerente de negociações internacionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Fabrízio Panzini.

Zanotto acredita na resolução dessas pendências e que não há mais razões para se adiar o anúncio político. “Já era para [o acordo] ter sido feito em dezembro, mas acabou sendo adiado duas vezes. É um momento único, com Brasil e Argentina passando por reformas estruturais importantes, buscando maior inserção na economia mundial. Seria o primeiro grande acordo assinado pelo Mercosul.”

Para os analistas ouvidos pela reportagem do DCI, o acordo beneficia a indústria brasileira como um todo, com alguns setores sendo mais diretamente favorecidos.

“Indústrias que enfrentam barreiras tarifárias são os ganhadores óbvios, como a química, têxtil e autopeças. Essas tarifas fazem a diferença em um mercado competitivo. Retirando, há vantagens em relação a concorrentes que não têm acordo, como os EUA e a China”, afirma Panzini.

Zanotto acredita que o acordo também trará benefícios colaterais ao Brasil. “Traz ganhos em competitividade, produtividade e em tecnologia. Existe a discussão de cláusulas de compras governamentais, que permitiriam empresas europeias vendendo para o governo brasileiro e investindo em projetos de infraestrutura no Mercosul”, esclarece.

Menos protecionismo

Dumas avalia que as indústrias brasileiras terão que militar por reformas que permitam melhores condições de competitividade ao parque fabril nacional. “A abertura comercial aumenta a competição. As empresas reclamam de custo tributário, mão de obra e logística, o que é justo. Mas é justamente por isso que devem fazer lobby para promover reformas, com a mesma força com que pediam redução de IPI [Imposto sobre Produto Industrializado]”, afirma. “O que traria crescimento é mais educação, menor custo Brasil e aumentar a inovação.

As empresas não lutam tanto por isso quanto por benefícios fiscais.” Para o professor de economia do Ibmec/SP, o protecionismo não traz benefício algum à sociedade. “Com o acordo, o Brasil irá fazer parte de uma cadeia de suprimento mundial. Querer fazer tudo aqui para se desenvolver é uma mentalidade ultrapassada. O governo não pode mais proteger uma indústria que não é competitiva”, pondera Dumas.

Fonte: DCI